O que houve no Equador? Ensaio sobre a história do país do centro do mundo




Uma banda de músicos indígenas da cidade de Cotacachi durante os protestos de 2022.

O que houve no Equador?

Para entender a atual situação do Equador, é necessário analisar o contexto histórico do país andino e da sua estrutura social ao longo dos séculos. Aqui apresento um breve ensaio.


Um contexto obrigatório


Com apenas 256.360 quilômetros quadrados (menor do tamanho do estado de Tocantins), o Equador é um dos menores países da América do Sul e único, junto com Chile que não faz fronteira com o Brasil. É dividido em quatro regiões naturais: a Costa formada pelo litoral do Pacífico, as terras baixas meridionais produtoras de arroz, banana, cacau, camarão e as florestas tropicais setentrionais com rios, minerais e palma africana; a Sierra atravessada pela cordilheira dos Andes desde a fronteira com a Colômbia até a fronteira com o Peru, onde se encontram a maioria das terras de culturas andinas como as batatas (mais de 500 variedades), milho (mais de 300 variedades) e cereais, protegidas por grandes vulcões como Chimborazo (6310 metros) ou Cotopaxi (5897 metros); Amazônia que protege, junto com o Peru, a Colômbia, a Venezuela, o Brasil e a Bolívia a maior floresta húmida do planeta e que abriga as mais importantes reservas petrolíferas do país e, finalmente as Ilhas Galápagos, um dos maiores laboratórios naturais da Terra.


Mapa do Equador. Fonte: wikimedia commons

A capital histórica, política e administrativa é Quito, localizada no norte dos Andes, segunda mais alta do planeta a 2850 metros de altura, a maior e motor econômico do Equador, concentrando 3 dos 18 milhões de habitantes. A segunda cidade é o porto de Guayaquil, que controla o 60 por cento das importações e exportações. As línguas oficiais são espanhol e quéchua, além de mais 13 línguas indígenas reconhecidas na Constituição como oficiais nos seus territórios ancestrais. Desde 2000, após uma grave crise econômica, social e política, o Equador adotou o dólar americano como moeda oficial, perdendo a sua moeda própria chamada "Sucre".


Quito, capital do Equador, a maior cidade do país localizada no meio da cordilheira dos Andes. Fonte: própria.


Guayaquil, principal porto do Equador, segunda maior cidade. Fonte: wikimédia commons. 


Monte Chimborazo (6310 m.) o maior vulcão do Equador. Fonte: própria. 


Rio Napo na Amaz
ônia. Fonte: wikimédia commons.

Uma amálgama cultural

O Equador possui 18 milhões de habitantes, dos quais um 70 por cento são mestiços, 7 por cento indígena, 7 por cento montúbios, 7 por cento de afrodescendentes e o resto distribuído entre brancos, asiáticos e migrantes. Mesmo que a percentagem da população indígena pareça reduzida, a maioria dos mestiços equatorianos têm sangue produto da mistura entre os antigos povos originários e os conquistadores espanhóis.


Mestiços de classe média da cidade de Quito, nos Andes. Fonte: Própria.


Segundo um relatório da CEPAL publicado em 2016, o Equador é o país com a maior densidade demográfica da América do Sul (56.8 habitantes por Km2) e com uma alta percentagem de população rural alcançando mais de 35 %, quando a média na região é de apenas 20 %.


Mulher da nacionalidade quéchua de Saraguro, na província de Loja no sul dos Andes.
Fonte: wikimédia commons. 



Indígenas da nacionalidade de quéchua da cidade Otavalo, famosos tecedores e mercadores. Província de Imbabura ao norte de Quito. Fonte: wikimédia commons.


Indígenas da nacionalidade Shuar da região Amazônica que moram entre o Equador e o Peru. Falam a língua Shiwiar. Fonte: wikimédia commons. 


Mulheres afrodescendentes do Valle del Chota dançando seu ritmo tradicional chamado "bomba", Fonte: própria.


No centro o empresário Álvaro Noboa, um dos homens mais ricos do Equador, dono da maior exportadora de bananas do país e de outras empresas, junto a sua família em Guayaquil. Fonte: https://www.alvaronoboa.com/

As origens da atual população equatoriana




O Equador tem sido o berço de algumas das mais antigas civilizações da América. No litoral foi descoberto o cemitério de Las Vegas com 200 enterros de 10 mil anos de antiguidade em cujos restos encontraram-se vestígios de cultura do milho. Também no litoral os arqueólogos encontraram a cerâmica mais antiga do continente produzida pela cultura Valdivia (3900 a.C.), e o mais antigo forno de fundição de metais em 2500 a.C. Centenas de povos originários muito ricos em arte e cultura se espalharam ao longo do país e de milhares de anos. Os acervos dos museus equatorianos são uma amostra da riqueza desses povos, da sua sabedoria e da sua força. Esses fatos contribuíram à sua resistência, primeiro à invasão dos incas peruanos por volta do ano 1460 e depois dos espanhóis em 1534.


Vaso de ceramica da cultura Valdivia (3900 a.C.) Fonte: Museu Nacional


Famosa máscara do sol feita em ouro e platina pela cultura La Tolita (500 a.C.)
Fonte: Museu Nacional.


Os incas estabeleceram uma sociedade organizada em estratos sociais, começando pelo "Hatum apu" que era a autoridade principal, tipo imperador dentro da lógica dos europeus, depois tinha uma elite religiosa e militar e abaixo o povo composto pelos agricultores, artesãos e trabalhadores. Se estabeleceu um sistema de trabalho chamado "mita" que abastecia o Estado da energia indispensável para construir e conservar caminhos e pontes. Era um sistema de trabalho em favor do Estado destinado à formação da civilização através da construção de centros administrativos, templos, aquedutos, casas, pontes, entre outros. Embora os incas consolidassem essa sociedade hierarquizada, a redistribuição da riqueza era mais igualitária, além do que existia um forte sentido de comunidade e de organização comunitária chamada “minka”.



Ruínas pré-incas de Rumicucho, localizadas na Metade do Mundo, ao norte de Quito. 
Fonte: própria.

A conquista espanhola significou o surgimento de uma sociedade dividida por meio de um sistema de castas. Primeiro os espanhóis ibéricos, que eram os nascidos na metrópole e eram tratados como espanhóis de primeira classe, segundo os espanhóis americanos chamados de "criollos", considerados espanhóis de segunda classe e no último local os espanhóis "de orilla" (da beira-mar) que eram aqueles nascidos nas ilhas Baleares ou Canárias. 


"Senhora principal com a sua escrava negra", quadro feito pelo Vicente Albán em 1783 que representa uma espanhola. Fonte: wikimédia commons. 

Continuando com aquele sistema, estavam os mestiços (mistura de espanhóis e indígenas), os indígenas e afinal os negros (subdivididos em vários grupos segundo a sua mistura). 


Retrato de Rosa Larrea, Marquesa de Selva Alegre com seus filhos e "criolla" nascida em Quito. Século XIX. Fonte: wikimédia commons. 


Índio da etnia yumbo representado pelo Vicente Albán em 1783. Fonte: wikimédia commons.

Depois da assinatura do Tratado de Tordesilhas entre a Espanha e Portugal em 1494, os territórios da América foram divididos entre os dois reinos. A coroa castelhana decidiu, para obter uma melhor administração das colônias, a criação de vice-reinos, sendo os primeiros Nova Espanha (1535) com capital na Cidade do México e Peru (1542) com capital na Cidade dos Reis (Lima). A autoridade mais importante era o vice-rei, cujo cargo não era hereditário e devia ser espanhol peninsular. Durante a dinastia dos Habsburgo, os vice-reis eram pessoas "nobres", principalmente militares, enquanto na época dos Bourbon, podiam ser da burguesia ou funcionários que fossem letrados. 

O território desde Buga (na atual Colômbia) até Piura (no litoral norte do Peru) e Chachapoyas (na Amazônia peruana) foram parte de uma província chamada Real Audiência de Quito e criada pelo rei Felipe II com capital na cidade de Quito. Mesmo que tinha certa autonomia judiciária, dependeu administrativamente, ao longo de quase duzentos anos da época colonial, do Vice-reino do Peru. 


Mapa da Real Audiencia de Quito de Francisco Requena y Herrera feito em 1779. 
Fonte: wikimédia commons

Durante toda a colônia, a coroa espanhola instalou um sistema de controle, através de quatro formas de escravidão aos povos originários.

Primeiro funcionou a "encomienda" que foi uma instituição jurídica imposta pela coroa com o objetivo de regular o recolhimento de tributos e circunscrever a exploração do trabalho indígena. Ela foi aplicada na região das Antilhas em 1503 e durou no resto das colônias até o século XVIII no qual foi se consolidando a segunda forma de escravatura chamada de sistema de "haciendas" (fazendas) que eram grandes unidades produtoras dedicadas à criação de gado, agricultura ou elaboração de tecidos. Dentro desse sistema, os indígenas foram escravizados e vendidos como mercadorias, apesar de existirem leis aprovadas pelo próprio Reino que deviam garantir o respeito aos "naturais". 


Fazenda e "obraje" de Tilipulo, perto da cidade de Latacunga, nos Andes centrais. Durante os séculos XVII e XVIII foi um dos grandes centros produtores de tecidos e cenário da independência em 1820. Fonte: própria.


A terceira forma, foi nomeada em língua quéchua "wasipunku" o "huasipungo" que em português se traduz numa porção de terra de uma fazenda que era entregue aos indígenas em troca do seu "trabalho" na terra e ao invés de um pagamento. Finalmente temos o "concertaje", uma forma de obrigar aos indígenas a se endividar com os patrões, convertendo eles em propriedade dos donos da terra, do mesmo jeito que os negros eram tratados no Brasil colonial. 


"Los Guandos", pintura do artista Eduardo Kingman de 1941 que representa a exploração dos indígenas nas fazendas. Fonte: Museu da Casa da Cultura. 

Neste ponto, o caso dos afrodescendentes equatorianos, tem duas histórias. Os primeiros negros chegaram em 1553 num barco que afundou à frente do litoral da atual província litorânea de Esmeraldas e no qual sobreviveram apenas 17 pessoas que na sua chegada a terra firme se declararam homens e mulheres livres. Único caso na história da América onde os negros não foram escravizados ao longo da etapa colonial. Por outro lado, a começos do século XVII, os jesuítas trouxeram da atual Colômbia, um grupo de negros escravizados para trabalhar nas plantações de cana de açúcar, localizadas num vale chamado "Valle del Chota". Este grupo teve uma história muito similar à dos escravos brasileiros.

Desse jeito foi se conformando uma sociedade de castas muito marcada pelas divisões e as desigualdades. Os indígenas e os negros andinos foram escravizados, usados e vendidos junto com as fazendas e tratados como bestas de carga. As riquezas geradas pela produção têxtil nos "obrajes" (fábricas produtoras de tecidos), pelas plantações de cana de açúcar usada para produção de cachaça e açúcar, pela mineração e a colheita e exportação de cacau do litoral, eram controladas pelas elites "criollas" e pela Igreja católica, deixando por fora às maiorias.


Interior da igreja de São Francisco construída em 1535 pelos franciscanos. As ordens religiosas controlaram todos os momentos da vida colonial. Fonte: própria.

O estado colonial foi se enchendo de uma burocracia atrasada que se acostumou a viver das rendas da extração e exploração, acumulando poder econômico, embora não tinham poder político porque todas as vagas para cargos públicos eram só ocupadas por peninsulares.

Essa situação de desigualdade das elites americanas ao respeito de seus pares europeios, foi uma das razões que promoveu as primeiras tentativas de autonomia que começam aparecer no século XVIII com a imposição na Espanha da dinastia dos Bourbon e o aparecimento do pensamento ilustrado.

Uma efémera independência

Em 1736, uma turma de dez cientistas franceses da Academia de Ciências de Paris junto com dois marinhos espanhóis chegaram em Quito para medir um arco do meridiano terrestre e estabelecer a forma da Terra. Essa visita contribuiu com novas ideias promovidas pela ilustração. Em 1793, um mestiço quitenho chamado Eugenio Espejo (1747-1795), publicou "Primícias da Cultura de Quito", considerado o primeiro jornal do Equador. Médico, advogado e jornalista, Espejo criticou o sistema social e político nas colônias e divulgou uma série de ideias que foram bem recebidas pelos círculos sociais intelectuais "criollos" incluso após a sua morte. 


Eugenio Espejo, principal pensador de Quito do século XVIII, representado por um ator. 
Fonte: própria. 

Em 1808, a invasão de Napoleão Bonaparte da Espanha e Portugal, além de uma crise econômica e social sistêmica, foram os pretextos para que um grupo de nobres quitenhos resolvera formar uma "junta de governo" em 10 de agosto de 1809. Infelizmente, essa junta não teve apoio nem de Guayaquil, nem de Cuenca, nem Bogotá e pior Lima. Os vice-reis do Peru e do novo vice-reino da Nova Granada mandaram tropas militares e finalmente acabou acontecendo a perseguição e massacre dos patriotas em 1810.

A ordem colonial foi imposta novamente e, a despeito de algumas tentativas por obter uma autonomia, a Real Audiência de Quito teve de aguardar até 1820 para que Guayaquil se declare província independente. O pensador e poeta José Joaquim de Olmedo foi nomeado presidente e a primeira ação que fez, foi a organização de um exército para a libertação de Quito, no entanto, depois de algumas derrotas, os guayaquilenhos pediram ajuda ao Libertador Simón Bolìvar que enviou seu melhor homem, o general venezuelano Antônio José de Sucre para organizar a campanha do sul que começou em 1821 e acabou em 24 de maio de 1822 com a batalha de Pichincha e a declaração da independência. Finalemte, Guayaquil, Cuenca e Quito foram unidas como parte da República da Grã-Colômbia, criada por Bolívar em 1819. Mas, esse sono de juntar à América do Sul numa nação só, durou até 1830 quando os principais líderes revolucionários resolveram abolir a república e criar novos estados: Nova Granada, Equador e a Venezuela.


Representação do indígena quéchua Lucas Tipán, governador de índios do vilarejo de Sangolquí e guia do exército libertário de Sucre em 1822. Fonte: própria. 


Lutas e resistência

A base da organização indígena é o “ayllu” que traduzido do quéchua poderia significar família, porem o sentido seja muito mais amplo do que na cultura ocidental, porque no mundo andino, a família é a comunidade toda. Dentro da cosmologia dos povos de fala quéchua dos Andes, existem dois princípios muito fortes. A “minka” que significa o trabalho comunitário que seja útil para o bem comum e o “aymi” que significa a reciprocidade, é dizer, se eu faço alguma coisa por você, você deve ser reciproco. Outro conceito muito presente nas comunidades e que inclusive foi incluso na Constituição de 2008, é quele de “sumak kawsay” que significa “bem-viver”. Segundo a lógica desses povos, todos os “runas” (pessoas) tem direito a viver bem, que não é a mesma coisa de viver melhor. O pensamento andino é circular e cíclico. Foi graças a essa filosofia que conseguiram resistir ao longo dos séculos.

Durante a etapa colonial, houve várias rebeliões e lutas populares contra os abusos do sistema, as taxas e a escravatura como a Revolta das Alcabalas em 1592 e a dos Estancos em 1765, além de inúmeras revoltas indígenas como Pomallacta em 1730, Alausí em 1760, Riobamba em 1764 e muitas outras até Guamote em 1803. Em todas foi evidente a capacidade dos indígenas de organização, de espírito de corpo e de resistência.

Da “República dos brancos” até a “República dos Bancos”


O processo de independência da Espanha só significou a mudança de dono porque a América Espanhola deixou de pertencer a um rei ibérico para acabar nas mãos das elites locais. O filósofo equatoriano-mexicano Bolívar Echeverría escreveu que:

“Colocamos o fato da conquista no século XVI, mas não é verdade, a conquista ainda não acabou. Desde o início do século XIX, os estados latino-americanos assumiram o projeto da coroa espanhola de substituir o mundo americano pelo mundo europeu. Os povos que não puderam ser exterminados foram expulsos de suas regiões e forçados a viver em regiões inóspitas, onde tiveram que proteger seus restos culturais em condições terríveis. Seus herdeiros são aqueles que agora reaparecem no cenário latino-americano, para sua última defesa, antes de serem definitivamente conquistados, ou seja, são os índios que não podem mais restabelecer, reconstruir sua própria identidade e, nesse sentido, o que se percebe justamente e como fenômeno negativo da mestiçagem é este: a impossibilidade de reconstruí-los. Os índios de hoje nos Andes não podem mais reconstruir o império Inca; os maias de hoje não poderiam mais reconstruir sua sociedade, suas religiões, suas línguas. É impossível, tudo isso se perde, ou pior ainda, como uma ferida aberta, acaba se perdendo. Essa perda é uma chaga que sangra há séculos e que não tem a saída ideal que se possa imaginar, a de recompor o mundo pré-hispânico; e, no entanto, os remanescentes dessas culturas continuam a ser completamente destruídos”.


Entre 1830 até 1895, o conceito de Estado-Nação foi construído pelas elites chamadas de “branco-mestiças” que buscavam consolidar um projeto nacional, mas sempre desde uma perspetiva euro-centrista e sob o amparo da Igreja Católica, sem compreender a dimensão da diversidade cultural do Equador e as suas múltiplas realidades e complexidades. Embora o processo libertário tenha sido importante para obter a plena autonomia política, América não conseguiu se libertar no pensamento nem economicamente. Por isso ainda dependemos da Europa e dos Estados Unidos para lhes vender as matérias primas e importar produtos finalizados.

Nesse sentido, o filósofo argentino-mexicano Enrique Dussel diz que: “Falar de descolonização é referir-se à colonialidade instalada a partir do embate entre duas lógicas culturais distintas, onde uma subjuga a outra em múltiplas dimensões”. 


O general venezuelano Juan José Flores foi o primeiro presidente do Equador em 1830. Fonte: Fundo Nacional de Fotografia. 


Em 1895, o general Eloy Alfaro liderou a Revolução Liberal, um processo onde participaram pela primeira vez, desde as guerras da independência, grupos populares do litoral (afrodescendentes e montúbios) chamados de “montoneras” e que promoveram a construção de um novo país e a abolição do “concertaje” que ainda afetava às populações mais pobres e camponesas. A Constituição de 1906 separou a Igreja do Estado, expropriou algumas propriedades, aprovou a liberdade de cultos, criou a Lei do Matrimônio Civil, a Lei do Divórcio e permitiu o direito à educação das mulheres, passos gigantescos num país dominado pelo catolicismo. 

Cartão postal de 1908 do General Eloy Alfaro e o trem. Fonte: Arquivo Histórico.


Infelizmente, com o apoio da imprensa daquela época e dos grupos econômicos mais fortes, Alfaro fou detido e assassinado queimado vivo numa fogueira em 1912, provocando a total divisão do liberalismo. O sucessor, o general Leónidas Plaza manteve uma política menos radical e aliada à banca privada que, naquela época, controlava a emissão de moeda chamada Sucre desde 1884. A economia do Equador era baseada na produção e exportação do cacau, abrindo o caminho para o surgimento de uma elite agro-exportadora que na sua maioria já era mestiça e que impulsou um novo projeto de nação, mas sempre desde um olhar capitalista, de livre mercado e euro-centrista, porem os Estados Unidos começaram seus primeiros investimentos no país com a construção da estrada de ferro de Guayaquil para Quito (mais de 400 quilômetros) e a mineração na região do litoral sul.

A situação de pobreza e marginalidade levou a uma greve nacional em 15 de novembro de 1922 que foi brutalmente reprimida pelo governo, provocando a morte de milhares de trabalhadores na cidade de Guayaquil, cujos corpos foram jogados no rio Guayas.

O período entre 1912 e 1925 foi conhecido como “plutocracia”, governado principalmente pelo poder dos banqueiros que controlavam a economia e a moeda. Em 9 de julho de 1925, um grupo de militares liderou um golpe de Estado que o chamaram de “Revolução Julhana”, primeira tentativa de impor um governo de esquerda com amplo apoio popular, dos setores indígenas, camponeses e dos trabalhadores. Graças a esse movimento, a nova Constituição conseguiu aprovar várias leis fundamentais, como a jornada trabalhista de 40 horas, salário básico, previdência social, férias e criação do Banco Central do Equador, entre outras instituições públicas importantes para a modernização do Estado. 


Banco Territorial e Agrícola de Guayaquil foi o mais poderoso do Equador desde final de século XIX. Seu dono foi preso pela Revolução Julhana em 1925. 
Fonte: Arquivo Histórico. 

O Indigenismo e o Estado


A Primeira Guerra Mundial (1914-1919) tinha fraquejado a economia agroexportadora provocando instabilidade e mais desigualdade social, principalmente nas comunidades camponesas, indígenas e afrodescendentes. Várias lideranças indígenas como Dolores Cacuango (1881-1971) e Tránsito Amaguaña (1909-2009) iniciaram as suas lutas nas montanhas setentrionais dos Andes, contra as terríveis condições de vida dos povos originários e exigindo educação intercultural bilingue (nas línguas originárias e espanhol). 


Dolores Cacuango. Fonte: www.mujeresbacanas.com


Em 1922, o escritor e pensador equatoriano Pío Jaramillo Alvarado publicou seu livro “O índio Equatoriano”, primeiro ensaio de análise sobre a situação de exploração dos indígenas que logo se converteu na inspiração de todo um movimento de intelectuais e artistas que, ao longo das décadas de 1940 até 1970, divulgaram a cultura e o pensamento dos povos originários. Em 1934, o escritor Jorge Icaza publicou seu romance “Huasipungo”, considerado um dos primeiros relatos latino-americanos sobre a situação dos indígenas no Equador e que foi traduzido ao português e publicado em 1941 pela extinta editora Guaíra em Curitiba.

Nas artes plásticas, uma geração de artistas como Camilo Egas (1889-1962), Pedro León (1894-1956), Bolívar Mena Franco (1913-1996), Eduardo Kingman (1913-1997) e Oswaldo Guayasamín (1919-1999), entre outros, colocaram pela primeira vez aos indígenas como sujeitos da arte, enquanto as elites editavam as fotografias que se publicavam nas guias comerciais para que não apareceram aqueles que “enfeavam” a imagem.


"As floristas", pintura de 1917 do artista Camilo Egas, um dos pioneiros em representar aos indígenas na arte moderna. Fonte: própria. 


Foto do José Domingo Lasso onde o indígena foi deletado. Fonte: Actualidad RT. 


Ao mesmo tempo, a influencia da Revolução Mexicana de 1910 e a Revolução Russa de 1917, motivaram a criação dos partidos de esquerda comunista e socialista, os quais contribuíram a promover as lutas sociais, indígenas e trabalhistas e a fundação da primeira organização indígena de base chamada Federação Equatoriana de Índios em 1944.

A “questão indígena” se converteu num problema sem solução para os governos equatorianos do período entre-guerras (1920-1945).

A “Banana Republic”

O pesquisador da revista espanhola “Historia y Vida”, Carlos Hernández Echevarria relata no seu artigo “Assim nasceram as repúblicas bananeiras” que em 1873 o novaiorquino Minor Cooper Keith construía uma estrada de ferro na Costa Rica quando começou semear bananas para alimentar os seus trabalhadores. Imediatamente percebeu que aquelas frutas tropicais tão baratas para ele, dobravam seu valor nos cais de Nova Iorque ou Nova Orléans. Dez anos depois, conseguiu a cessão de 325.000 hectares de terras virgens e uma isenção de impostos por 20 anos. Em 1899, Keith e outros empresários, fundaram a United Fruit Company (UFC). Tempo depois, a companhia conseguiu obter terras no Panamá, na Honduras, na Guatemala e finalmente na Colômbia, no Equador, em Cuba e na República Dominicana, convertendo-se no maior monopólio de frutas tropicais do mundo.

Segundo um artigo da Human Rigths Watch, o Equador entrou no mercado bananeiro em 1910, no entanto, não se tornou um grande exportador até depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1933 a UFC comprou a fazenda Tenguel, localizada na província de Guayas e a transformou na maior produtora de banana do país. 


Colheita de banano na década de 1940. Fonte: https://guerrade1941.blogspot.com/


Mais uma tentativa de revolta popular apoiada por vários atores sociais e militares, acabou na chamada “Revolução Gloriosa” em 28 de maio de 1944 que derrubou o ditador Carlos Alberto Arroyo del Rio, e impôs uma Junta de governo que, através de uma Assembleia Nacional Constituinte, redigiu uma nova Constituição de tipo socialista, considerada por muitos historiadores, como a melhor da história e aprovada com ampla maioria popular. Aquela junta também trouxe de volta o líder político José María Velasco Ibarra que estava exilado na Colômbia e quem, após ganhar as eleições, desconheceu a carta magna e se tornou ditador até ser derrubado novamente pelos militares e uma oposição conformada por setores ultra conservadores.

Em 1948, o presidente Galo Plaza Lasso, fazendeiro ligado aos Estados Unidos e a suas políticas de “boa vizinhança” implantadas após a sua “vitória” na guerra, começou um programa para promover o desenvolvimento da indústria bananeira que incluiu a concessão de créditos públicos à agricultura, construção de portos e de uma estrada costeira, regulamento de preços e ajuda para o controle de pragas. Embora a exportação da banana gerasse receitas financeiras para o Estado, as condições de trabalho eram de exploração e escravatura. 


Galo Plaza com o presidente Harry Truman numa visita oficial aos Estados Unidos em 1951. Fonte: wikimédia commons. 

Naquela época e como parte do projeto de modernização do país, Plaza organizou o primeiro censo populacional no qual se estabeleceu que o Equador tinha 3’202.000 habitantes, dos quais mais de 343 mil eram considerados indígenas. A nação andina era principalmente rural com uma forte presença indígena nos campos dedicados à agricultura e criação de gado, enquanto na esfera urbana, as mulheres eram faxineiras das casas dos “branco-mestiços” e os homens eram trabalhadores da construção.

Populismo, militarismo e petróleo


A instabilidade social, econômica e política do país ao longo do século XX, foram as principais causas que promoveram o surgimento de um caudilho chamado José María Velasco Ibarra (1893-1979), cuja liderança e poder de movimentação das massas populares, fizeram dele presidente da República por cinco vezes entre 1934 até 1972. Mesmo que só conseguiu terminar a terceira presidência entre 1952 e 1956, sua figura determinou a imposição do populismo no Equador e a irrupção daquelas “massas”, maioritariamente mestiças, no cenário político. 


Velasco Ibarra recebendo o presidente do Chile Salvador Allende em 1971 no antigo aeroporto de Quito. Fonte: wikimédia commons. 


Não obstante, a disputa pelo poder sempre foi dividida entre as elites agro-exportadoras do litoral, os banqueiros de Guayaquil e Quito, os industriais têxteis da Sierra, os donos da terra e os militares.

Em 1959, Fidel Castro e seu movimento guerrilheiro tomou o controle de Cuba depois do triunfo de uma revolução que significou para as amplas maiorias de trabalhadores e movimentos sociais, uma esperança para melhorar a situação de um país fragmentado por uma longa história de desigualdade e no qual, apesar de ter abolido a escravatura negra em 1851 e indígena com a Constituição liberal de 1906, na prática a questão de exclusão, marginalidade e exploração dos povos originários e afrodescedentes continuava sem ter solução.

Os anos 60 representaram uma época marcada pelos movimentos sociais e estudantis, influenciados pelas ideias da esquerda latino-americana e processos como a revolta de maio de 1968 em Paris, na França. Naquele ano foi criada a Confederação Nacional de Organizações Camponesas, Indígenas e Negras (FENOCIN). Essa efervescência não gostou ao governo dos Estados Unidos que lançou a sua contra-ofensiva chamada Aliança para o Progresso, com o objetivo de deter o vírus do comunismo, criando programas de “apoio econômico” e educacional para os países da América Latina.

Em 1963, os militares provocaram um golpe de estado que deu início a uma junta que acabou devido à pressão social. No entanto, em 1972, o general Guillermo Rodríguez Lara derrubou Velasco Ibarra que tentou ter todos os poderes para conseguir se manter no cargo e em 1976, o general Alfredo Poveda Burbano derrubou Lara, impondo mais um governo de fato, neste caso apoiado pelos Estados Unidos com a ideia de implementar o tristemente famoso Plano Condor, aquele que promoveu todas as ditaduras militares do cone sul e no Brasil. No meio desse momento de crise, em 1972 foi criada a Confederação dos Povos da Nacionalidade Quéchua dos Andes (Ecuarunari).

Embora o petróleo tenha sido descoberto na península de Santa Elena, no litoral sul do país em 1911 e explorado pela companhia inglesa Anglo Ecuadorian Oilfields Limited, foi apenas na década de setenta, com a descoberta dos depósitos petroleiros na Amazônia em 1972, que o Equador entrou na lista dos principais produtores do ouro preto do mundo. As políticas implementadas deram apenas 20 % das regalias para o Estado e o resto para empresas estrangeiras, principalmente a americana Texaco Gulf. A ditadura militar investiu para infraestrutura pública, construção de estradas e usinas hidroelétricas, porem, o escritor uruguaio Eduardo Galeano no seu livro ícone “As veias abertas da América Latina” disse que o “boom petroleiro” trouxe para o Equador televisão a cores ao invés de escolas ou hospitais. 


Primeiro barril de petróleo mostrado pelos militares em 26 de junho de 1972. 
Fonte: El Universo.

Por outro lado, o Conselho Supremo do Governo adotou uma política repressiva contra vários protestos civis. A comunidade internacional pressionou o governo militar para viabilizar o retorno à democracia, com o qual foram nomeadas três comissões jurídicas: a primeira com a missão de redigir um novo texto constitucional, a segunda com o objetivo de propor reformas à constituição de 1945, e a terceiro para reestruturar o sistema partidário.

Retorno a uma fraca democracia, Peru e os Estados Unidos

Os anos 80 chegaram marcados pelo retorno à democracia e a vitória nas eleições de 1979 do candidato do extinto partido Concentração de Forças Populares (CFP), Jaime Roldós Aguilera, que afinal parecia o único líder capaz de transformar um país empobrecido e com um Estado muito fraco que arrastava profundas desigualdades. Aos poucos, a migração interna e o auge petroleiro converteram o Equador, de ser um país rural, num país urbano e com uma nascente classe média.

A contribuição mais significativa de Jaime Roldós foi sua política internacional de Direitos Humanos em uma época em que a maioria dos países latino-americanos era governada por ditaduras militares como a de Pinochet no Chile e a do Brasil.

Como resultado da eleição de Ronald Reagan como presidente dos Estados Unidos da América em 4 de novembro de 1980, esses setores conservadores tiveram a oportunidade de mostrar sua oposição, da qual derivou uma luta oculta. Em janeiro de 1981, Roldós recusou o convite para participar da posse de Reagan devido as suas discrepâncias em direitos humanos e estreitou os laços com o governo sandinista da Nicarágua e com a Frente Democrática de El Salvador, que se opunha ao regime militar naquele país. Seu lema sempre foi o país acima de todas as coisas. 


Jaime Roldós na sua posse. Fonte: El Universo. 

Um dos principais problemas externos do Equador após a criação da República em 1830, foi a fronteira com o Peru, tema que provocou várias guerras entre 1858 e 1941. Essa última terminou com a mediação do Brasil, Chile e os Estados Unidos e a assinatura do Protocolo do Rio de Janeiro, no qual o Equador perdia uma grande extensão de território da Amazônia. O Presidente Velasco Ibarra desconheceu esse acordo e as operações militares continuaram até 1981 em que houve mais uma guerra que o Roldós teve de encarar. O confronto ocorreu em uma faixa de terra pertencente à Cordilheira do Condor, região montanhosa na fronteira entre os dois países e aceita como oficial após o protocolo do Rio, mas que o governo equatoriano alegou não ter sido definida corretamente, pois o executivo equatoriano entendeu que o território de seu país nessa área atingiu o rio Maranhão, permitindo-lhes a sua própria saída para o Amazonas.

Infelizmente, Roldós morreu produto de um “acidente” aéreo meses depois em 1981, o que levou o país novamente a uma situação de instabilidade e a definitiva imposição do neoliberalismo. O seu vice-presidente Osvaldo Hurtado continuou o mandato até 1984. Durante o seu governo, converteu as dívidas em dólares de alguns bancos privados contratadas fora do país, em dívidas em sucres com o Banco Central do Equador, pelas quais o Banco assumiu o compromisso de pagar em dólares aos credores internacionais, desta forma as dívidas privadas externas passaram a fazer parte da dívida pública externa.


Foi um processo conhecido como sucretização da dívida equatoriana, que gerou elevados prejuízos ao Estado, no valor acumulado de US$ 4.462 milhões. Com a desvalorização, o valor nominal dos sucres da dívida externa do setor privado aumentou, o que poderia causar falências e fechamentos massivos de fábricas e outros negócios. O setor privado argumentou que as desvalorizações foram causadas por más políticas governamentais. Isso converteu a dívida externa privada dolarizada em sucres, a chamada "sucretização", e embora o Banco Central cobrasse comissões para cobrir o risco da taxa de câmbio, grande parte desse risco foi transferida para o Estado, que estendeu sua garantia para a dívida externa privada.

Em 1984 ganhou as eleições o social-cristão León Febres Cordero, da aristocracia de Guayaquil que impôs uma política baseada no terrorismo de Estado, com forte criminalização dos protestos sociais, violações aos direitos humanos, desaparecimentos forçados, perseguição e tortura a líderes sociais e até militarização da Corte Superior de Justiça, fatos que acenderam mais a chama do descontentamento das maiorias. 


Ronald Reagan, León Febres-Cordero, Nancy Reagan e a primeira dama equatoriana María Eugenia Cordovez na Casa Branca em 14 de janeiro de 1986. Fonte. wikimédia commons. 


Luz Elena Arismendi e Pedro Restrepo protestando pela desaparição forçada dos seus filhos Carlos de 17 e Pedro de 14 anos, o caso mais conhecido no Equador de desaparecidos e torturados na época de Febres Cordero. Fonte. TelesurTV


A social-democracia governou entre 1988 até 1995 com Rodrigo Borja e Sixto Durán Ballén, sem conseguir resolver os problemas estruturais do país e muito pelo contrário, consolidando aquele perverso relacionamento do país com os Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional, através da aplicação do Plano Brady, criado pelo Secretário do Tesouro Nicholas Brady em 1989 e das políticas do chamado Consenso de Washington. Em 1995 houve outra guerra com o Peru na região amazônica de Cenepa, conseguindo o cessar-fogo com a intermediação da Argentina, Chile e os Estados Unidos e a assinatura de um acordo em Itamaraty.

A retomada da luta indígena e o desfile de presidentes


Para quem gosta dos desfiles de moda, o Equador da última década do século XX viveu um desfile de chefes de estado, num país que ainda não conseguia se consolidar como uma ideia de nação.

Em 1986 foi criada a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) que, ao longo dos anos tem se consolidado como uma das mais fortes organizações de bases populares do país e que junto à FENOCIN e a Ecuarunari representam aos setores historicamente excluídos.

Em 1990, as ações de resistência dos povos e nacionalidades indígenas começaram em 28 de maio com a tomada pacífica da igreja de Santo Domingo em Quito, nos dias seguintes e com mais força, mobilizações de convocação impressionante foram ativadas a partir de segunda-feira 4 de junho, a partir de então as ações foram imparáveis nas províncias de Cotopaxi, Tungurahua, Bolívar, Chimborazo, Imbabura e Pichincha, mais tarde se juntariam as organizações populares de Azuay, Cañar, Loja e da região amazônica, o levante indígena demonstrou assim seu poder.


Luis Macas, primeiro líder da CONAIE no grande levante de 1990 contra o governo neoliberal de Rodrigo Borja. Fonte: CONAIE. 

“Terra, Cultura e Liberdade” foi a voz de luta do levante indígena em 1990 entre 28 de maio e 11 de junho, a luta indígena foi articulada com base no "Mandato pela defesa da vida e dos direitos das nacionalidades indígenas”. Isso permitiu a fundação do Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik, primeiro partido político indígena do Equador.

Um guayaquilenho de origem libanesa chamado Abdalá Bucaram, obteve o triunfo em 1996, oferecendo meter as mãos nos bolsos das calças dos ricos para compartilhar com os mais pobres, mas seu período se caraterizou pelos escândalos e a corrupção, razões pelas quais vários movimentos sociais como camponeses, indígenas e classe média convocaram passeatas e protestos. Finalmente o Congresso Nacional, com o apoio de alguns setores econômicos e com a cumplicidade da imprensa corporativa, o declararam com “incapacidade mental” e o dispensaram do cargo em fevereiro de 1997, dando lugar a uma crise institucional porque a vice-presidenta Rosalía Arteaga, que devia assumir a presidência interina, apenas três horas depois foi também, de forma anti-constitucional e com o apoio das Forças Armadas, removida em favor do Presidente do Congresso Nacional Fabián Alarcón.


Abdalá Bucaram e o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori em Lima. Fonte: Imago Images. 


Após uma Assembleia Nacional Constituinte em 1998, que teve o mandato de revisar e modificar a Constituição de 1978, foram realizadas eleições gerais nas quais Jamil Mahuad Witt, da Democracia Cristã e ex-prefeito de Quito, foi eleito presidente. Naquele ano, foi assinado um acordo de fronteira com o Peru em 26 de outubro que acabou com os confrontos, embora o Equador tenha mantido a sua tese da perda de 200 mil Km2 em favor do Peru.

A presidência do Mahuad continuou com uma política de apoio aos bancos privados, providenciando-lhes recursos públicos e criando, por meio do Congresso Nacional, uma agência encarregada de pagar as dívidas das instituições financeiras privadas. No meio das pressões internacionais, principalmente do Fundo Monetário Internacional e a complexa crise econômica e do sistema bancário que provocou uma hiperinflação, o governo decretou em 8 de março de 1999 um “Feriado Bancário”, medida muito parecida com o “corralito” aplicado na Argentina e que significou o congelamento de depósitos das contas de mais de 2 milhões de sucres por um ano. O efeito de decretar a inflação foi a depreciação das poupanças da população. Em resposta às medidas do banco central, os equatorianos começaram a trocar massivamente a moeda nacional, o sucre, pelo dólar americano mais confiável. 


Capa do jornal de direita El Comercio. Fonte: jamilmahuad.com


A crise financeira produziu aproximadamente 70% da falência das instituições financeiras do país. O curioso da história foi que o ministro de economia daquela época foi Guillermo Lasso, dono do Banco de Guayaquil e atual presidente. Em 1999 a atividade econômica era de -7 ou -8% e o sucre perdeu seu valor em 195%. As perdas econômicas totalizaram 8.000 milhões de dólares. A renda per capita em dólares dos Estados Unidos caiu 32% durante aquele ano. O desemprego aumentou de 9% para 17% e o subemprego aumentou de 49% para 55%. 1,6 bilhão de dólares dos fundos do Estado do Equador foram usados para os bancos que faliram. A oferta de dinheiro aumentou a uma taxa anual de 170% para pagar os depositantes dos bancos falidos. Numa tentativa desesperada, Mahuad decretou a dolarização em 9 de janeiro de 2000, na qual o país perdia a sua soberania monetária adotando o dólar como moeda oficial. O resultado daquelas medidas foi a emigração de quase 3 milhões de equatorianos, a maioria dos quais foram para os Estados Unidos, a Espanha e a Itália. 


Milhares de pessoas desesperadas pelo roubo de um dos bancos privados durante o feriado bancário em Quito. Fonte: lodelmomentoloja.com

Infelizmente aquele duro êxodo não teve a mesma divulgação naquela época como o que tem acontecido com a Venezuela nos anos recentes. Entre as consequências sociais desse processo temos a fragmentação da sociedade e das famílias, o abandono dos campos e de regiões inteiras como o sul dos Andes, nas províncias de Cañar e Azuay.

A CONAIE e outras organizações populares mais uma vez organizaram protestos que acabaram com a tomada do Congresso Nacional por parte dos indígenas e a conformação de um triunvirato liderado pelo coronel Lúcio Gutiérrez, o presidente da Corte Suprema de Justiça Carlos Solórzano e o presidente da CONAIE Antônio Vargas. Mahuad fugiu protegido pela Embaixada dos Estados Unidos e hoje é professor de economia em Harvard. Finalmente aquele movimento rebelde não teve o apoio suficiente e no dia seguinte, o vice-presidente Gustavo Noboa tomou posse da primeira magistratura de forma interina. 


O coronel Lúcio Gutiérrez junto com o Antônio Vargas, presidente da CONAIE no golpe de estado contra Jamil Mahuad. Fonte: El Universo. 

A Revolução Cidadã


Embora o golpe contra Mahuad tenha sido considerado mais uma vitória do movimento indígena, os problemas estruturais do país continuavam acrescentando. Protestos estudantis em Quito, Cuenca e Guayaquil por causa do aumento das tarifas do transporte público, do gás doméstico e dos combustíveis, continuaram ao longo do período do Noboa que era mais conhecido pela sua capacidade para contar piadas, do que para administrar o país.

O fato interessante nesse momento foi que o coronel Lúcio Gutiérrez foi preso e se converteu numa espécie de herói para vários movimentos de base que o consideravam o Messias, uma espécie de Hugo Chávez versão equatoriana. Após a sua libertação, Gutiérrez conseguiu o apoio de amplos setores do movimento indígena e camponês que o levaram à vitória nas eleições de 2002, mas já no poder, seu governo se caraterizou pelo nepotismo e escândalos de corrupção. Como parte das medidas desesperadas, Gutiérrez que tinha sido isolado pelas suas alianças, fez novas com os setores mais conservadores e, interveio na Corte Suprema de Justiça, no Tribunal Constitucional e no Tribunal Supremo Eleitoral, tentando colocar funcionários afins com as suas políticas. 

No entanto, isso provocou o descontentamento da população e em abril de 2005 se produziu a rebelião conhecida como “Rebelião dos Foragidos”, na qual múltiplos setores da sociedade civil, classe média, camponeses, indígenas e sindicatos de trabalhadores apoiaram um novo golpe que derrubou o presidente, depois de uma forte repressão por parte das forças do Estado e da tentativa de se declarar ditador, completando oito chefes de estado em dez anos de vida democrática. Gutiérrez fugiu para pedir asilo na Embaixada do Brasil, país onde ficou por um tempo para depois voltar ao Equador e, de forma impune, continuar na política. 


Uma turma atacou a casa particular de Gutiérrez que os chamou de "bando de foragidos". Nunca imaginou que esse nome provocaria a Rebelião dos foragidos que o derrubou.
Fonte: Timetoast.

Foi nesse contexto que apareceu uma nova liderança, o economista e professor universitário de ideologia progressista Rafael Correa Delgado, de origem guayaquilenha. Seu carisma e projeto político afastado dos partidos tradicionais, movimentou a vários grupos de intelectuais, artistas, organizações de base, povos originários e afrodescendentes que depositaram as suas esperanças na chamada “Revolução Cidadã” que ganhou imensa popularidade.

Foi uma era na qual a América Latina viveu uma efervescência de governos progressistas com Hugo Chávez na Venezuela, Néstor Kirchner na Argentina, Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Fernando Lugo em Paraguai, e a Michele Bachelet no Chile. O mapa geopolítico mudava ao mesmo tempo que Washington tentava impor as suas iniciativas como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), acordo assinado por várias nações na primeira Cúpula das Américas celebrada em Miami em 1994 e que foi rejeitada em Mar del Plata em 2005 por vários países. 


Rafael Correa numa das suas campanhas. Fonte: El Comercio Perú.

Correa ofereceu uma nova Constituição que refundasse o Equador. Após ganhar as eleições em 2006, convocou a um referendo para convocar uma Assembleia Nacional Constituinte que contou com 81 por centro de aprovação do povo. Na cidade de Montecristi, localizada na província costeira de Manabí e berço dos famosos chapéus Panamá, se construiu a sede da assembleia na qual se redigiu a nova Carta Magna com a participação de vários grupos políticos e sociais. Em 28 de setembro de 2008 foi aprovada pelo 64 % da população e em 2009 foram convocadas eleições dentro do novo quadro constitucional, nas quais Correa ganhou com 52 % dos votos contra, embora pareça piada, Lúcio Gutiérrez que obteve 28 % e o milionário bananeiro Álvaro Noboa com 11 % dos votos. Essa primeira fase a desenvolveu junto com seu vice-presidente e companheiro ideológico Lenín Moreno Garcés que, devido a todo o seu trabalho nas áreas sociais e das pessoas com deficiência ganhou muita aceitação popular.

A partir daquele momento, o trem da Revolução Cidadã começou andar. Entre as primeiras medidas tomadas estiveram a renegociação da dívida externa com o FMI, a renegociação dos contratos petroleiros, devolvendo o Equador o 80 % do lucro e só distribuindo o resto entre as empresas estrangeiras, e a retirada das tropas militares estadunidenses que tinham ocupado uma base militar no porto de Manta desde 1999 com o pretexto da luta contra o narcotráfico. No entanto, o principal problema que o Correa tinha de encarar era se confrontar com as elites e grupos econômicos que não querem abrir mão de nada, além da mídia privada que é controlada por um grupo de empresários que também controlam outras empresas e têm relação com a banca privada.

Em 30 de setembro de 2010, uma tentativa de golpe gerada desde um setor da Polícia Nacional e com o apoio de alguns líderes políticos, empresários e os Estados Unidos, provocou um dia de caos no qual o presidente foi detido no hospital policial da cidade de Quito após tentar negociar com as tropas por causa de um projeto de reforma de lei do serviço público. A manipulação da imprensa foi a principal responsável daquela crise que causou 9 mortos durante as manifestações populares de apoio ao governo. 


Rafael Correa atacado com uma bomba no quartel da Polícia Nacional quando tentou explicar aos policiais o projeto de reformas da Lei do Serviço Público em 30 de setembro de 2010. Depois disso foi detido no hospital da Polícia e resgatado por uma operação especial. 
Fonte: planv.com.ec


Dentro desse contexto, o movimento indígena apoiou o processo de mudança e inclusive se organizou uma cerimônia de posse onde vários líderes indígenas entregaram a Correa o bastão de mando, símbolo dos povos originários, junto com os presidentes Evo Morales e Hugo Chávez. No entanto, as próprias divisões internas dentro da CONAIE e Pachakutik fizeram que um setor se afastara do governo, principalmente por três questões muito complexas de solucionar: a distribuição e controle do água nas comunidades, a exploração petroleira na Amazônia e a mineração em áreas perto a fontes hídricas. 


Chávez e Evo Morales acompanhando Rafael Correa na cerimônia oficial comemorando a Batalha de Pichincha em 24 de maio de 2009, vestindo ponchos indígenas e com o bastão de mando. Fonte: gettyimages


Em matéria de investimento, a Revolução Cidadã significou o desenvolvimento em várias áreas estratégicas:

  • Construção de mais de 9 mil quilômetros de estradas.
  • Construção de nove usinas hidroelétricas.
  • Criação de três universidades públicas (Yachay dedicada à inovação tecnológica; UNAE dedicada à melhorar a educação; a Universidade das Artes que promove o ensino público de cinema, literatura e artes cênicas; e IKIAM dedicada a pesquisa na Amazônia).
  • Criação da Secretaria Nacional de Ciência e Tecnologia encarregada da transformação da educação superior.
  • Ampliação de bolsas de estudo, graças às quais mais de 20 mil jovens equatorianos conseguiram estudar nas melhores universidades do mundo.
  • Construção de Escolas do Milênio em várias regiões do país.
  • Construção e modernização de portos e aeroportos.
  • Construção e potenciação de hospitais e centros de saúde pública.

No relatório da CEPAL, anteriormente citado, em 2015, o Produto Interno Bruto (PIB) por habitante do Equador foi de 6.248 dólares. Durante os anos intermediários do segundo milênio, cresceu a uma taxa mais rápida do que a média da região. No entanto, a partir de 2015, o Equador ainda tinha uma diferença de 34% em relação ao PIB per capita da América Latina e do Caribe. 


A cidade do conhecimento "Yachay", na província de Imbabura, foi um dos maiores projetos da RC, uma espécie de Silicom Valley na América do Sul. Fonte: wikimédia commons. 


Hospital Docente no bairro de Calderón, Quito, administrado pelo Ministério de Saúde Pública. Fonte: SATEC 


As estradas construídas ao longo da RC foram as mais modernas da América Latina.
Fonte: confirmados.ec


Na área de trabalho, o Equador em 2013 contava com 45.7 % de trabalhadores sem acesso à previdência social, pertencendo a maioria (64,3 %) às áreas rurais contra 32,8 % nas áreas urbanas. Não obstante, a partir de 2006 se desenvolveram políticas públicas e esforços que reduziram a informalidade trabalhista de 67 % para 45 % em 2013. O país teve um processo sustentado de crescimento de 4,5 % cada ano até 2014.

Em um relatório apresentado pelo Centro de Pesquisa em Economia e Política (CEPR) baseado nos Estados Unidos, se divulgou que o crescimento do PIB per capita entre 2006 até 2016 foi de 1,5%, em comparação ao 0,6% dos anos anteriores; a redução do fosso entre o 10% mais rico na frente do 10% mais pobre de 36% para 25%; o investimento nas áreas sociais dobrou de 4.3 % em 2006 para 8.6 % em 2016, incluindo educação, saúde, desenvolvimento urbano e moradia.

No plano internacional, o Equador promoveu a criação da União de Nações Sul-Americanas (UNASUR), a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e entrou na Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América e Tratado de Comércio dos Povos (ALBA-TCP), promovida pelos governos da Venezuela, Cuba e a Nicarágua. 


VIII Cúpula da UNASUL em Guayaquil em 2014. Fonte: TelesurTV

Não obstante, a oposição se concentrou em setores ecologistas, alguns grupos empresariais e a mídia corporativa com quem manteve uma relação muito tensa ao longo da sua gestão. Mesmo assim, Correa foi reeleito nas eleições de 2013, junto a um novo companheiro de fórmula, o engenheiro guayaquilenho Jorge Glas Espinel, quem liderou os setores estratégicos e, além disso com maioria no parlamento.

Talvez algumas das áreas menos atendidas foram a da cultura e a agricultura que ainda reclamam por melhores condições e investimento. A Revolução Cidadã significou o desenvolvimento de importantes maiorias, como citam vários estudos internacionais, mas outro dos problemas internos que é difícil atacar na nossa América Latina é combater a corrupção estrutural que está espalhada em todos os níveis da sociedade. Mesmo que nos 10 anos da revolução, o país avançou graças a um projeto político e a uma transformação baseada numa nova estrutura institucional com altos índices de aprovação popular, principalmente da classe média urbana com forte apoio em Quito e Guayaquil, antigos vícios da velha política conseguiram entrar pelos buracos, provocando a ruptura interna do movimento Aliança PAIS, criado por Rafael Correa. 


Jorge Glas e Rafael Correa. Fonte: metroecuador.com

Por outro lado, a guerra mediática dos monopólios da comunicação tanto do Equador quanto do estrangeiro, contribuíram a polarizar uma sociedade cheia de fraturas arrastadas do passado. A luta de classes foi cada vez mais evidente ao longo dos vários protestos que houveram contra Correa por certos projetos de lei apresentados por ele na Assembleia Nacional, como uma Lei de Mais-valia para controlar o valor da terra, uma Lei de Herança para conseguir que os ricos paguem mais e uma Lei da Mídia que promoveu uma redistribuição das frequências entre empresas privadas, o Estado e a mídia comunitária. Essa última lei foi usada como bandeira de luta pela imprensa corporativa que, demonstrando espírito de corpo, conseguiu posicionar na opinião internacional e interna, a falsa ideia de tentar cortar a liberdade de expressão. 


Protestos contra a Lei de Herança na Avenida Los Shyris, uma das regiões mais caras de Quito e da América Latina, onde 1 m2 custa por volta de USD 2 mil. Fonte: semana.com


Porque, como disse o próprio Correa em várias entrevistas, chegar à presidência de um país na América Latina, não significa ter realmente o poder, pois para qualquer presidente é necessário tentar fechar acordos com os setores que controlam a economia que, no caso do Equador são um grupo de famílias que são donas das maiores empresas exportadoras de matérias primas, importadoras de bens de consumo, empreiteiras e construtoras, jornais, canais de televisão, rádios, revistas e instituições financeiras.

Num relatório da CEPAL y OXFAM apresentado diante las Nações Unidas em 2016, na América Latina o 10 % da população mais rica concentra 71 % da riqueza e apenas tributa 5,4 % das sua renda. Nesse sentido, resulta paradoxo que aqueles grupos econômicos que tanto criticaram o governo, foram os mais beneficiados da era correista. Nesse sentido, um estudo realizado pela Universidade Técnica de Ambato sobre os grupos econômicos no Equador revelou que para o ano de 2007, a concentração da riqueza foi de 30,28% e em 2016 foi de 58,63%, ou seja, houve um aumento de 28,35% ao longo dos 10 anos do governo de Correa.

Em 16 de abril de 2016, um terremoto de 7.8 Mw atingiu o Equador com epicentro nas províncias costeiras de Esmeraldas e Manabí, causando 670 mortos, 12.492 feridos e 130 desaparecidos. Isso, além da queda dos preços do petróleo, provocaram uma contração da economia. 


Cidade de Manta atingida pelo terremoto em 2016. Fonte: El Universo.

O início do desastre


Rafael Correa com Lenín Moreno quando dizia que "Correa tem sido o melhor presidente do Equador" Fonte: La Vanguardia. 


Para as eleições de 2017, Lenín Moreno foi apresentado como o candidato do correismo, junto com Jorge Glas como vice-presidente, mostrando um discurso de continuação do projeto político, de correção dos erros e de fortalecimento das mudanças estruturais que tinham convertido o Equador, num modelo de desenvolvimento na América Latina e o mundo. Embora o Correa deixasse “a mesa pronta” para seu sucessor, as coisas mudaram. No início do governo, chamou a um diálogo nacional, supostamente para unir a todos os setores sociais e econômicos e reconciliar a todos os grupos que se afastaram do Correa, porem o que acabou acontecendo foi que Moreno fez alianças com os partidos políticos da ultra-direita entre os quais estavam o Partido Social Cristão e CREO (partido do banqueiro Guillermo Lasso). Depois disso começou a perseguição contra todos os líderes aliados do Correa, conseguindo dividir ao Movimento Aliança PAIS. 


O banqueiro Guillermo Lasso apertando m
ão do Moreno com quem governou nas sombras e planejou o plano para "descorreizar" o país. Fonte: elestado.net


Naquele ano explodiram na América Latina os escândalos de corrupção da construtora brasileira Odebrecht que também atingiram o Equador. A empresa brasileira chegou no país na década de 80 e conseguiu contratos com mais de dez governos. Em 2008, Correa a expulsou do país por sérios problemas na construção da hidroelétrica San Francisco, porem após o pagamento da indemnização ao Estado, voltou em parceria com a empresa espanhola Acciona para se encarregar da construção do metrô de Quito. Em 3 de agosto de 2017, Moreno retirou o vice-presidente Jorge Glas das suas funções ao que respondeu com uma carta que provocou a sua destituição. O governo de Moreno associou Glas com a suspeita de ter recebido USD 14 milhões de propinas pela construtora, declarando a sua prisão preventiva, de seu tio Ricardo Rivera e mais seis supostos implicados. O caso tem sido denunciado pelo correismo de Lawfair ou perseguição dos líderes da RC diante a Corte Interamericana dos Direitos Humanos com o argumento de não ter provas reais que o envolvam com o caso e de não lhe dar o direito a ter um devido processo.

Segundo a organização estadunidense de direitos humanos Human Rights Pulse, em um giro de 180 graus, Moreno optou por conduzir o país de forma orientada aos interesses de sua antiga elite política e econômica, fortalecendo no processo a influência dos Estados Unidos (EUA) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) ), levantando o perigo de vender o país a potências estrangeiras.

O acordo com o FMI em 2018 tinha muitos erros inconstitucionais, o governo ignorou a Assembleia Nacional e o Tribunal Constitucional em violação dos artigos 419 e 438 da Constituição estadual, carecendo também de legitimidade democrática. Enquanto os bancos, como resultado das políticas do governo, tiveram lucros recordes em 2019, o país também viu um aumento significativo da pobreza. Permitir que os EUA usem as Ilhas Galápagos como aeródromo militar, autorizar a entrega de Julian Assange e retirar-se da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) fortaleceu ainda mais a relação do Equador com os EUA que obteve maior influência sobre as decisões políticas internas do país sul-americano.

Um referendo autorizado em 2018 sem a aprovação do Tribunal Constitucional permitiu que Moreno criasse um órgão cuidadosamente selecionado, o “CPCCS transitório” (Conselho de Participação Cidadã e Controle Social), que posteriormente destituiu os nove juízes do Tribunal Constitucional. Essa medida ameaçava a separação de poderes do país e a independência do judiciário. Além disso, a liberdade de imprensa foi quase inexistente no estado. Por tudo isso, em outubro de 2019, o movimento indígena liderado pela CONAIE, mais uma vez saiu à luta com mais de 12 dias de protestos que, segundo denunciaram várias organizações internacionais de direitos humanos, resultaram em inúmeras denúncias de detenções ilegais, uso de tortura, mais de 800 de feridos, julgamentos realizados em quartéis militares e mais de 24 mortos, segundo um artigo publicado no jornal El País de Espanha publicado em 7 de junho de 2022.  



Forte repressão aos manifestantes por parte da Polícia Nacional durante os 12 dias de protestos. Muits pessoas perderam os olhos. Fonte: brecha.com.uy


No meio daquela crise, a perseguição contra Correa, para evitar que voltasse a se candidatar para as eleições de 2020 o envolveu em dois supostos casos, “Sobornos” (propinas) no qual um tribunal resolveu que a participação do ex-presidente na colheita de propinas para contratos de empresas com o Estado foi por “influxo psíquico” e outro muito polémico e apoiado pela imprensa corporativa, sobre um suposto sequestro de um ex-deputado.

Atualmente Rafafel Correa mora em Bruxelas, na Bélgica desde a sua saída da presidência porque a sua esposa é belga e ele tinha advertido a necessidade de ficar um tempo com a sua família lá. No entanto, devido a sua complexa situação, conseguiu o asilo político.

Mais uma nova crise e o desastre


A pandemia significou o aumento dos problemas estruturais do Equador, um país instável que, depois de uma década de mudanças e prosperidade, retrocedeu devido às políticas impostas pelo FMI e seguidas pelo Lenín Moreno em parceria com o banqueiro guayaquilenho Guillermo Lasso, um dos principais opositores da RC e principal interessado de deixar o caminho livre para chegar à presidência. Com o apoio da mídia corporativa e com o desmantelamento da mídia pública (jornais, canal Ecuador TV e rádios públicas), tem se conseguido posicionar num setor dos cidadãos de classe média a ideia da corrupção exacerbada e a ideia do que todos os problemas do país são por culpa do Correa. Vários membros de Aliança PAIS traíram seus princípios se aliando com os partidos de da ultra-direita mais conservadora e apoiando as medidas impostas pelo FMI. Isso obrigou o Correa criar um novo movimento chamado de Força e Compromisso Social com o qual apresentaram como candidatos para o processo eleitoral de 2020 a Andrés Arauz e Carlos Rabascal.      

Infelizmente, com um Estado tomado pelos poderes econômicos graças à retomada das elites, toda a estrutura da mídia corporativa, os erros ao interno do movimento e a divisão da esquerda equatoriana, o banqueiro Guillermo Lasso obteve seu maior prêmio em 2021, ganhando as eleições em segundo turno com 52 % dos votos contra 48 % do candidato progressista. 


No centro o banqueiro Guillermo Lasso celebrando a vitória junto com Jaime Nebot Saadi, ex-prefeito de Guayaquil por mais de uma década e um dos homens mais ricos do país. Fonte: Deustche Welle.

No entanto, no primeiro ano de administração, Lasso tem continuado com a redução do tamanho do Estado, radicalização das medias do FMI, desmantelamento e venda de várias empresas públicas, privatização dos setores estratégicos e um abandono total das políticas públicas nas áreas de educação, saúde e previdência social, sem contar com decretos aprovados que afetam aos trabalhadores e trabalhadoras e acrescentam o fosso entre ricos e pobres.

Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INEC), a cesta básica familiar é de USD 735,00 com um salário básico unificado de USD 425,00; emprego adequado de 33,2 %; desemprego de 3,7 %; a pobreza por renda de 27,7 %; taxa de pobreza multidimensional de 39,2 %

Atualmente o Equador encara um cenário muito complexo. Deixou de ser um dos países mais seguros da América Latina para se transformar num país com uma grave crise do sistema prisional, com a introdução de sicários e crime organizado e o aumento de feminicidios, da pobreza extrema e do desemprego. O desastre das políticas neoliberais, o aumento dos preços dos combustíveis e a segurança são algumas das razões que levaram o movimento indígena a organizar o grande levante nacional que começou em 12 de junho de 2022 e continua até hoje com o apoio da Frente Unitária de Trabalhadores, da União Nacional de Educadores, da FENOCIN, da CONFENIAE, da Confederação dos Indígenas evangélicos, da Federação de Estudantes Universitários do Equador, de vários sindicatos de funcionários públicos e da saúde, operadores de transporte público e agricultores. 

A CONAIE tem apresentado 10 pontos que buscam aliviar a economia de um país no qual hoje apenas um 33 % da população tem trabalho fixo com direito a salário básico e previdência social, enquanto o resto se divide entre a informalidade ou subemprego. Uma tal Lei Humanitária aprovada por decreto do Moreno e continuada por Lasso, deu a chance dos empresários de demitir aos trabalhadores sob o pretexto de “crise ou falência provocada pela pandemia”. Além disso, os movimentos de indígenas e camponeses exigem, entre outros pontos, políticas de apoio verdadeiro aos agricultores com a moratória por um ano das dívidas adquiridas com a banca pública, declaração da emergência no sistema de saúde pública, maior orçamento e autonomia da educação intercultural bilingue e a reestruturação do ingresso às universidades públicas. No entanto, a resposta do executivo tem sido a detenção arbitrária do Presidente da CONAIE Leónidas Iza, caso único na longa história de levantes indígenas, a forte repressão da força pública provocando 7 falecidos, 8 desaparecidos, 145 feridos, 127 detenções forçadas, 11 fatos de repressão e 23 províncias paralisadas e a tomada por parte da Polícia Nacional e dos militares, da Casa da Cultura Equatoriana e da Universidade Politécnica Nacional. 


Em todas as províncias do país tem protestos, principalmente na Sierra central. Fonte: wambraradio


Protestos em Quito contra Lasso. Fonte: Primicias. 


Protestos estudantis em Cuenca. Fonte: El Universo. 



Intervenção das forças policiais na Casa da Cultura Equatoriana, complexo cultural onde se encontram vários museus, teatros, biblioteca e arquivo nacional de cinema e a mais importante rádio cultural do país. Aconteceu em 19 de junho às 9h30 com o argumento de ter recebido uma chamada anônima informando de que um suposto grupo de venezuelanos tinham escondido armas.  Fonte: TelesurTV




Protestos multitudinários em Guayaquil em apoio ao levante. Fonte: Facebook.



Através de um decreto de estado de emergência em várias províncias do paíso governo autorizou "o uso progressivo da força" o que tem provocado abuso pela Polícia Nacional. Fonte: TelesurTV




Mulheres indígenas reprimidas durante protestos em Quito. Fonte: Facebook. 


Devido à forte pressão social, a Casa da Cultura foi libertada em 23 de junho e os movimentos sociais tomaram o controle dela. Aqui no teatro chamado Ágora onde se desenvolveu a Assembleia dos Povos, no entanto, apesar disso, a polícia bombardeu no interior com bombas lacrimogêneas. Fonte: Facebook.


No momento de terminar este ensaio, a Assembleia Nacional está debatendo a possibilidade da demissão do Presidente Guillermo Lasso, aplicando o artigo 130 da Constituição chamado de “morte cruzada”, no qual tanto o Presidente quanto a Assembleia devem demitir e convocar a eleições antecipadas.

Conclusões

Aqui um breve ensaio sobre um país com mais de 10 mil anos de história humana e onde as lutas sociais têm sido protagonistas ao longo dos séculos, mas também de um país que, mesmo maravilhoso e abençoado pela Mãe Terra (Pachamama em quéchua), esconde uma sociedade marcada e quebrada com fraturas que são a herança de séculos de desigualdade, de instabilidade, de racismo e classismo normalizado desde a época colonial.

Os equatorianos de hoje se dividem entre aquela minoria dos que se acham brancos com ancestrais nobres e que concentram a maioria da riqueza; os indígenas que lutam por seus territórios, por manter as suas línguas e se confrontam contra a mineração e a exclusão; os afrodescendentes de Esmeraldas que se debatem entre a venda de seus territórios ancestrais a empresas transnacionais em troca de migalhas para aliviar a sua condição de exclusão e pobreza; os mestiços das cidades que vivem numa borbulha e não olham para seus irmãos que passam fome e vivem com menos de USD 1,00 por dia e aqueles que aos poucos vão tendo consciência social.

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